O mundo das pessoas sem rostoAinda pouco conhecida, a prosopagnosia é uma espécie
de “cegueira para feições”; pesquisas mostram que o distúrbio pode ser
genético ou causado por lesões neurológicas |
julho de 2007
Thomas Grüter
| ESPORTISTAS, 1930-1931.ÓLEO S/ TELA DE KAZÍMIR MALIÉVITCH. MUSEU ESTATAL RUSSO, SÃO PETERSBURGO |
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O que você vê de diferente em mim?”, pergunta Sofia a Juliano, seu irmão
mais velho. A garota traz colado no nariz um pedaço de massinha de
modelar, como se fosse um nariz de palhaço. Ele tenta adivinhar: “Ah,
roupa nova? Está bonita...”. “Não!” “Tênis novos...?” Sofia, já
impaciente, afasta a mecha de cabelos que lhe cai sobre a face para
facilitar a visão. “No rosto!”, grita. Só então Juliano percebe a massa
de forma arredondada.
A inabilidade perceptiva do garoto é
denominada prosopagnosia. Trata-se de uma espécie de “cegueira para
feições”. Indivíduos afetados pelo distúrbio podem ver o rosto dos
outros quase sempre tão bem quanto qualquer pessoa, mas não conseguem
retê-los na memória e reconhecê-los. Para eles, essa parte do corpo fica
praticamente isenta de peculiaridades: é como se a face equivalesse ao
joelho ou à panturrilha. Esse grau de dificuldade é variável e, em
muitos casos, as pessoas nem sequer se dão conta de que têm um distúrbio
– acreditam que as demais pessoas vêem o mundo exatamente como elas,
povoado de faces indistintas.
Na Universidade de Münster, minha
mulher, a médica Martina Grüter, e eu temos pesquisado nos últimos anos a
variante congênita dessa inabilidade perceptiva e descobrimos que é um
problema mais disseminado do que se supõe num primeiro momento, embora
os estudos a esse respeito ainda sejam restritos. O conceito de
prosopagnosia é uma invenção moderna; a palavra resulta da junção do
vocábulo grego prosopon (face) e agnosia (não-reconhecimento). Foi
cunhada pelo neurólogo alemão Joachim Bodamer, que iniciou seus estudos
sobre o tema durante a Segunda Guerra, quando trabalhou no Sanatório
Winnental, um hospital psiquiátrico perto de Stuttgart. Ele observou em
dois soldados com lesões graves na cabeça uma acentuada inabilidade de
reconhecimento facial. Eles olhavam o rosto dos companheiros, mas não
conseguiam coordenar a percepção com a capacidade de reconhecê-los.
Ambos compensavam bem a sua obstrução – e um deles não tinha consciência
dela.
HABILIDADES DISTINTASUm terceiro
paciente, com uma lesão por estilhaço de granada na parte posterior da
cabeça, padeceu durante uma semana por ver faces grotescamente
desfiguradas; ele não conseguia identificar nem mesmo parentes próximos.
Bodamer concluiu que ver e reconhecer rostos são atividades distintas
para o cérebro e descreveu os casos que acompanhou em um trabalho
intitulado Die Prosop-Agnosie, no segundo semestre de 1947.
| © TIM HALL/GETTY IMAGES |
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| BRINCADEIRAS E JOGOS desenvolvidos na sala de aula podem ajudar a melhorar a qualidade de vida das crianças afetadas |
Nos anos seguintes, vários médicos observaram o mesmo fenômeno em
pessoas acidentadas e com outras lesões neurológicas, sobretudo quando o
tecido cerebral entre os lóbulos posterior e temporal fora danificado.
Uma forma congênita de prosopagnosia era desconhecida até então. Por
isso, ela só foi registrada na literatura médica em 1976; nos 25 anos
seguintes não mais que uma dezena de casos foram documentados.
Pesquisas
e projeções realizadas em nosso grupo de trabalho no Instituto de
Genética Humana de Münster, porém, nos levam a crer que cerca de 2% da
população é afetada por essa inabilidade em algum grau. Em amostragem
recente realizada com 689 estudantes, 17 apresentaram indícios do
distúrbio. Em 14 dos indivíduos pesquisados descobrimos sintomas de uma
prosopagnosia tanto em parentes próximos quanto nos do círculo familiar
ampliado.
Sabemos hoje que se o pai ou a mãe possui essa
inabilidade perceptiva, a probabilidade de ela aparecer também nos
filhos será de 50%. O sinal característico é, portanto, hereditário
dominante. E uma vez que a prosopagnosia afeta igualmente homens e
mulheres, evidencia-se que nela não tem participação nenhum cromossomo
sexual, mas provavelmente um “autossomo”. Fala-se, por isso, em traço
hereditário dominante autossomal .
A inabilidade congênita de
reconhecer rostos não necessariamente tem a mesma base neuronal da
prosopagnosia adquirida por lesão cerebral. Até o momento só sabemos que
ela parece responsável pelo distúrbio hereditário de uma única mutação
genética. A exemplo de todos os primatas, nós, seres humanos, temos
pouca habilidade olfativa em comparação com outras espécies, o que em
geral não nos permite reconhecer nossos semelhantes pelos odores de seu
corpo – como fazem, por exemplo, os cães. Em vez disso, temos uma visão
altamente aperfeiçoada para identificá-los.
| © MJUTABOR/DREAMSTIME |
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| MACACOS RESOS também têm capacidade de reconhecer feições |
Mas não somos os únicos. Também os macacos resos possuem habilidade
bastante apurada de perceber faces e, para tanto, usam as mesmas regiões
cerebrais que nós. Presume-se que há 25 milhões de anos ancestrais
dessas duas espécies já tivessem essa capacidade em comum.
Na
década de 80, estudiosos da Universidade de Glasgow atestaram o que as
mães sabiam desde sempre: lactentes reconhecem o rosto materno e o
preferem a outros. Em estudo realizado com 40 bebês de 2 dias,
pesquisadores mostravam a eles o rosto da mãe e o de outra mulher:
invariavelmente, os recém-nascidos contemplavam a imagem da estranha por
menos tempo. Com o uso apenas de fotografias (em vez da presença
concreta da mãe) foram excluídas as possibilidades de a criança se
orientar pelo olfato e de ter sua atenção desviada por algum gesto ou
mímica facial.
ROUPA OU VOZO distúrbio herdado
que afeta o reconhecimento de rostos pode ser percebido precocemente –
e, assim, evitar muito sofrimento emocional. Por isso, entrevistamos
mães de filhos com prosopagnosia, questionando-as se elas se recordavam
dessa característica em seus bebês. As informações manifestaram uma
concordância espantosa: muitas crianças já no primeiro ano de vida
demonstraram medo exagerado quando a mãe se afastava. Apesar de certa
resistência à proximidade de pessoas estranhas ser considerada normal
entre o oitavo e o 12o mês, tanto do ponto de vista psíquico quanto
neurológico, uma vez que coincide com uma fase do processo de maturação
própria do desenvolvimento infantil, em crianças com prosopagnosia esse
estranhamento parece durar mais.
IRRITAÇÃO SÚBITAEm
alguns casos, a mudança de detalhes na aparência das principais pessoas
de referência para a criança – como um novo corte de cabelo ou uma
toalha de banho enrolada na cabeça após o banho – causa nela uma espécie
de desorganização momentânea, fazendo com que reaja com grande
irritação.
| © ANDRES RODRIGUEZ/123RF |
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| NOS PRIMEIROS ANOS de vida o cérebro se especializa no reconhecimento das faces com que nos defrontamos com mais freqüência |
“Os encontros e reuniões na pré-escola eram sempre uma tortura para
mim”, comentou uma das mães entrevistadas por nossa equipe: “Todas as
outras crianças corriam sorridentes pra lá e pra cá e só minha filha
ficava parada em um canto, com medo, sem interagir. Só depois de um
tempo entendi que ela tinha receio de não mais me encontrar no meio de
outras mães e por isso só brincava se eu fosse a única pessoa adulta na
sala”.
No jardim de infância, a garotinha precisou de muito tempo
para “se achar” no grupo e se aproximar de seus companheiros. É
freqüente, após brincar com alguns colegas por mais de meia hora, que os
pequenos com o distúrbio se confundam e já não saibam com quem
continuar jogando. Às vezes, não reconhecem a mãe na hora de se despedir
ou ao revê-la após uma tarde na escola.
Pesquisas em psicologia
com alunos de 4 a 6 anos não costumam revelar nenhuma peculiaridade
psíquica. Na verdade, testes de inteligência freqüentemente indicam que
essas crianças estão muito mais avançadas em seu desenvolvimento
lingüístico do que em habilidades manuais ou de observação visual.
Agora, se perguntarem aos meninos e meninas como eles se reconhecem, a
resposta é: “Pelo cabelo”, “Pela voz” ou “Pela roupa”.
No ensino
fundamental, as dificuldades se repetem: “Alice precisou de meio ano
para se sentir à vontade com as outras crianças”, comentou sua mãe. Até a
professora ficou preocupada. A garota ficava meio distante durante a
aula, olhava tudo em volta – exceto para as pessoas. Mas não apresentava
problemas de aprendizagem.
Preocupados, vários pais submeteram os filhos a exames para detecção de
autismo, mas não houve confirmação em nenhum dos casos. O diagnóstico de
prosopagnosia congênita nunca chegou a ser formulado, pois até há pouco
tempo essa inabilidade de observação era completamente desconhecida de
psicólogos e pediatras.
Entre os 10 e os 14 anos,
aproximadamente, as estranhezas de comportamento diminuem bastante.
Torna-se evidente que as crianças desenvolveram estratégias para lidar
melhor com sua inabilidade de reconhecer rostos. Em todo o caso, o
problema básico persiste e também para os adultos provoca situações
penosas. Alguns passam por apuros: “Em uma festa eu tinha engatado uma
conversa com uma garota... Saí alguns instantes para pegar uma bebida e
quando voltei já tinha esquecido como ela era e não mais a encontrei a
noite inteira. Ela deve ter me achado um idiota”, comentou um
adolescente com prosopagnosia.
Será possível alguém se livrar de
tão desagradável experiência? Por enquanto não temos uma terapia que
evite o distúrbio. Mas podemos ensinar as pessoas afetadas a, desde
pequenas, reconhecer os sinais externos das outras pessoas com precisão.
Além disso, desde os primeiros anos elas devem ser incentivadas a
encarar as pessoas com quem estiverem conversando, pois as pesquisas
mostram que é a falta de contato visual que mais irrita as pessoas, o
que contribui para que sejam isoladas pelo grupo.
Além disso,
crianças com prosopagnosia têm condições de obter informações
importantes, observando atentamente o que está “na cara”, como idade,
estado de saúde, ânimo e humor de seus pares.
OLHOS NOS OLHOS
Algumas ações educativas simples, desenvolvidas na sala de aula, podem
ajudar muito a melhorar a qualidade de vida de meninos e meninas com
prosopagnosia. É importante, por exemplo, que se acostumem a encarar o
interlocutor ao ouvi-lo e ao lhe dirigir a palavra – como a fisionomia
não é relevante para elas, é freqüente que esqueçam esse procedimento.
Na escola, é possível ensinar crianças com o distúrbio a conhecer melhor
os colegas se fotos de todos os alunos, acompanhadas dos respectivos
nomes, forem afixadas em painéis ou mesmo na parede.
Jogos e
brincadeiras para conhecer os companheiros nas primeiras semanas de cada
ano letivo também ajudam na memorização de vozes. Professores podem
ajudar alunos com prosopagnosia a associar nomes a sinais externos,
dizendo, por exemplo: “Por favor, leve o livro até a Marcela, a de
cabelos encaracolados”.
É muito importante que a criança conheça a
escola e os futuros professores antes do primeiro dia de aula. Com
isso, no início oficial do período, ela pode se concentrar nos colegas.
Além disso, nos primeiros dias, os professores devem ter o cuidado de se
apresentar com “indícios estáveis”, evitando trocar corte e cor de
cabelos e óculos.
ATENÇÃO A OUTROS SINAIS
Uma criança com o distúrbio reconhece as pessoas por sinalizadores como
roupas, voz, corte de cabelo e movimentos característicos. Tem
dificuldades em reconhecer pessoas na multidão e por isso tem o cuidado
de não se soltar da mão do pai ou da mãe. Ao encontrar de forma
inesperada uma pessoa com quem tenha familiaridade, freqüentemente não a
reconhece. Raramente procura contato visual, o que, em alguns casos,
pode levar à suspeita equivocada de autismo.Diferentemente dos autistas,
não se aferra a hábitos enraizados e rituais. Tem empatia com os
demais, reage de maneira socialmente apropriada a sua faixa etária e
tampouco há retardo na aquisição da linguagem.
Quando bem
pequena, a criança apresenta muitas reações de estranhamento em relação
aos adultos e leva mais tempo que a maioria dos coleguinhas para se
integrar aos grupos. No caso da prosopagnosia congênita, na maioria das
vezes um dos pais da criança também é acometido pela inabilidade de
reconhecer rostos.
APTOS A DISTINGUIR
Quando nasce, a aptidão do bebê para o reconhecimento de fisionomias é
ainda difusa; ele adquire a chamada “capacidade de especificação” no
decorrer do primeiro ano de vida, e com algumas semanas já percebe
quando alguém o olha. Ao longo do desenvolvimento, podemos nos
apresentar mais ou menos aptos para determinadas percepções; em relação
ao reconhecimento de fisionomias, o cérebro se “especializa” cedo com as
que nos defrontamos com maior freqüência.
Em 2005, um grupo de
pesquisa-dores da Universidade de Sheffield, coordenado pelo professor
Oliver Pascalis, publicou um estudo mostrando que lactentes eram capazes
de distinguir até mesmo as fisionomias de macacos – habilidade que
acabariam desaprendendo antes de completarem 9 meses. Só aqueles que
eram “treinados” com retratos de nossos parentes peludos conseguiam
diferenciar os animais mesmo depois dessa idade.
Para conhecer mais
Neural systems for recognition of familiar faces, J. V. Haxby e M. I Gobbini, em Neuropsychologia 45, págs. 32-41, 2007.
First
report of prevalence of non-syndronic hereditary prosopagnosia (HPA),
I. Kennerknecht et al, em American Journal of Medical Genetics, Part A
140A, págs. 1617-1622, 2006.